Sábios ao Serviço do Islão. A Medicina como lugar de encontro de Judeus, Cristãos e Muçulmanos

77 - DAVID-FERREIRA, J. F., "Sábios ao Serviço do Islão. A Medicina como lugar de encontro de Judeus, Cristãos e Muçulmanos". Abril 2011. Notas Acontecimentos. Glossário palavras e conceitos. (não publicado)

 

J.F. David-Ferreira
Professor Jubilado da Faculdade
de Medicina da Universidade de
Lisboa

(manuscrito não publicado)

Este ensaio de amador foi imaginado e escrito para homenagear o Médico e Académico Professor António Dias Farinha que muito tem contribuído com erudição e saber para conhecimento do Al-Andaluz que tantas marcas deixou no nosso património cultural e genético.

Acontecimentos recentes levaram-me a "viajar", nómada cultural que sou, por terras do Próximo-oriente onde surgiram as três crenças que governam o mundo das religiões. Ponto de encontro e de confronto (entre o Ocidente e o Oriente) aí nasceram impérios e civilizações que na paz e na guerra estão na génese da civilização Ocidental.

Foi na Suméria e Acádia, do crescente fértil do Tigre e Eufrates, no Egipto, do Vale do Nilo, na Grécia e Roma do Mediterrâneo, onde cresceram as sementes e raízes da civilização dita Ocidental.

Das línguas e escritas que criaram, para comunicar entre si, surgiram as línguas francas, que as vitórias na guerra impuseram e o comércio das coisas e ideias difundiram.

Judeus, Cristãos e Muçulmanos lutam há séculos na Terra Prometida marcada e anunciada pelo Deus que criaram. Viveram tempos de tolerância e tempos de perseguição. Tempos de aproximação, que o comércio criou, e de distanciamento que a vontade de domínio separou.

Civilização judaico-cristã como sinónimo de Civilização Ocidental, está na origem de polémica recente que alguns interpretaram como tentativa de ocultar a contribuição do Islão, sintoma certo do "eurocentrismo" com que tem sido escrita a História a Ocidente.

Do Neolítico, donde partiram, e depois de uma caminhada de 1500 anos tribos nómadas vindas dos quatro cantos do mundo começaram a sedentarizar-se e com as escritas que inventaram, a escrever a sua História.
Descobriram a agricultura, a domesticação animal e vegetal, a pastorícia e meios de transporte com que encurtaram as distâncias que os separavam. Colonizaram as terras férteis onde alimentavam rebanhos na transumância que eram as suas vidas. Trocavam os bens que produziam quando se cruzavam.

Transformaram os primeiros aldeamentos em cidades. Diversificaram-se em actividades que hierarquizaram em profissões e classes sociais de pastores, agricultores, artesãos, mercadores, sacerdotes e senhores da guerra. Nas mãos e armas da aristocracia militar, concentrou-se o poder de governar legitimado pelo poder mágico-espiritual dos sacerdotes.

Nesta evolução sucederam-se, entre outros, Sumérios, Fenícios, Caldeus, Hititas, Egípcios e Persas. Vieram depois os Gregos, com a razão que tão bem lhes assistiu.

Da decadência das suas cidades-estado, que a Guerra do Peloponeso acelerou, emergiu a Macedónia de Filipe e de Alexandre que se tornou o arauto do Helenismo que acompanhou os seus exércitos até ao Indus.

Fundaram cidades onde depositaram saberes e cultura. Alexandria com o seu Museu e Biblioteca foi farol que iluminou todo o Próximo Oriente.

Depois da morte de Alexandre (323 AC) desmantelou-se o breve Império até que um novo Império vindo do Ocidente ocupou o vazio que os Ptolomeus criaram.

Dominaram toda a região os Generais e Imperadores Romanos ocupando sucessivamente o Egipto, a Síria, a Palestina e as duas margens do mediterrâneo de que fizeram o "mare nostrum".

Foi longo o domínio de Roma que se expandiu a norte até à Escócia e a Ocidente, através da Gália até à Península Ibérica.

Os povos do Médio Oriente e da bacia do Mediterrâneo foram precursores e protagonistas da grande aventura do conhecimento, matriz das civilizações que criaram. Exploraram os céus e a natureza, especularam sobre os poderes ocultos que governavam as suas vidas na terra e o seu destino na morte.

Da sua imaginação criadora nasceram deuses, religiões, a filosofia, as artes, as ciências da natureza em que conhecimento e sabedoria se foram cristalizando. Destacaram-se na Astronomia, na Matemática, Geometria, Arquitectura, Filosofia e no mais que entendiam por Ciências da Natureza.

Das especulações que fizeram sobre a génese do mundo e dos poderes ocultos que governavam as suas vidas nasceram mitologias com deuses que habitavam os céus, e os infernos nas profundezas da terra. Depois das religiões politeístas veio a crença num Deus único omnipotente.

Foi imaginado no Egipto por Akamenon (c. 1534 BC) e na Pérsia por Zoroastro (628-527 BC) mas foram os Hebreus que lhe deram consistência com as revelações de Abraão e de Moisés e depois com Jesus Cristo.
[AKAMENON]
[AMENHOTEP (c. 1534 BC)]

Dialogaram com esse Deus todo-poderoso justiceiro, mas cruel e vingativo que em troca de protecção exigia obediência e fidelidade aos mandamentos que ditou. No Antigo Testamento registou o povo eleito a génese do mundo criado por Javé e a história das suas origens dos patriarcas e reis que os governaram. Entre exílios foi curto o período em que reinaram Saul, Salomão e David.

Judeus e Cristãos nunca se entenderam, mas a mensagem dos apóstolos de Jesus perdurou no Novo Testamento.

Para finalizar este já longo bosquejo, que serve de pano de fundo ao tema que propus, falta referir outro marco histórico decisivo porque precursor do Império e da Civilização Islâmica.

Na fronteira flutuante, onde o Ocidente e Oriente se confrontavam, nasceu nas margens do deserto da Arábia uma nova fé. As tribos nómadas que sobreviviam, e floresciam, à custa da rapina e do comércio foram abaladas por uma revolução sociocultural que rapidamente se espalhou por toda a região.

Qual a génese e como se explica o sucesso de Maomé?

A vida de Maomé e todos os acontecimentos que acompanharam a sua ascensão como líder religioso e chefe militar são conhecidos. (serão míticos alguns). Membro da tribo dos Coraixitas foi frequentador da Caaba, lugar de peregrinação onde os Árabes adoravam os deuses ancestrais das suas tribos. Situada em Meca, onde se cruzavam as rotas comerciais entre o Ocidente e Oriente, o lugar era ponto de encontro de caravaneiros e mercadores.

Foi no convívio com judeus, cristãos e judeo-cristãos que Maomé tomou conhecimento dos mitos bíblicos e dos profetas abraâmicos que o tinham precedido na proclamação da fé num Deus único todo-poderoso.

Cedo se apercebeu Maomé do desencanto e revolta entre os mais desprotegidos frequentadores da Caaba. Homens habituados à vida frugal do deserto observavam como se comportavam os guardiões do templo e os ricos mercadores que os protegiam. Também ele órfão de tenra idade conhecia as dificuldades com que viviam os mais pobres. Fora caravaneiro e só depois do casamento com Cadija (593 AC) mercador de sucesso, circunstância que lhe deu oportunidade para retiros místicos numa caverna do Monte Hira.

Nos sonhos que teve surgiu a revelação. Foi mensageiro o Anjo Gabriel com o mandato divino de que ele era o último profeta e lhe ordenou que memorizasse as mensagens divinas. Não guardou segredo dos sonhos que tivera e foram seus primeiros confidentes Cadija e Abu Bakr e Ali que a partir daí (610 AC) o acompanharam na sua missão.

O Profeta fez-se pregador e com o apoio dos mais próximos, a quem ia transmitindo as revelações do Anjo Gabriel iniciou na Caaba o seu apostolado (613 AC).

Indignaram-se os guardiões e os mercadores antecipando os prejuízos que as prédicas de Maomé podiam causar ao seu comércio. Hostilizaram-no e perseguiram-no. Para lhes resistir refugiou-se em Yathrib com os seus companheiros. Foi em 622 que aconteceu a Hégira data que assinala o primeiro ano da Era do Islão.

Refugiado em Medina conquistou a confiança das tribos locais como negociador e apaziguador das querelas que os dividiam. Resistiu aos ataques que partiam de Meca e repostou ... negociou. Fez compromissos que renegou e saiu vencedor ao conquistar Meca em 630 AC. Profeta inspirado, político hábil e carismático, guerreiro destemido e impiedoso impôs aos crentes que o seguiam a disciplina de cinco orações diárias em que prostrados em direcção a Meca proclamavam submissão a Alá e recitavam em conjunto trechos memorizados do Corão.

Dizem os entendidos que o árabe do Corão, escrito para ser declamado, contribuiu, pela musicalidade, para a sua memorização e rápida difusão.

Num período histórico muito conturbado para as tribos Cristãs da Arábia, divididas pelas querelas cristológicas, incompreensíveis para a maioria dos crentes, surgia a mensagem popular e facilmente entendida dos cinco pilares da sabedoria. Perdida a coesão foram muitos os que se converteram.

No ano 632 AC Maomé, no rescaldo da vitória, conduziu a peregrinação a Meca onde na planície de Arafat sentado no seu camelo fez o "sermão do Adeus".

Regressado a Medina faleceu subitamente nos braços de Aisha sua esposa favorita.

O seu legado imediato: a islamização quási completa da Arábia e uma paz temporária nos conflitos tribais.
Não tendo deixado declaração explícita de sucessor coube aos líderes das tribos dominantes escolherem como seu sucessor o seu companheiro, amigo e sogro Abu Bakr a quem foi dado o título de Califa.

Consolidado temporariamente o poder na Arábia foi fulminante o avanço das hostes árabes. Com a derrota do Império Sassânida, caíram em seu poder vastas regiões sob o domínio persa e as mais importantes cidades do Próximo Oriente. Damasco em 635, Jerusalém em 637, o Cairo em 639. Após a conquista do Cairo e a ocupação do Egipto seguiu-se uma pausa no avanço pela margem sul do Mediterrâneo regiões até então dominadas por Bizâncio, com Cartago a garantir a segurança às suas rotas marítimas e comerciais.

Ultrapassado este obstáculo ficou assegurada a conquista de todo o Magrebe onde em 670 fundaram na Tunísia a cidade de Cairuão.

Em 711, sob o comando de Tarik atravessaram o estreito de Gibraltar e invadiram a Península Ibérica, o seu avanço só foi travado na Gália pela cavalaria franca de Carlos Martel em Poitiers (732).

Depois da conquista e integração no Império de todo o médio oriente, margem sul do Mediterrâneo e Península Ibérica o Islão começou a florescer como civilização nas cidades que os Califas árabes fundaram ou nas que renasceram para o comércio e cultura depois da conquista.

Também das incursões até ao Extremo-Oriente trouxeram da Índia e da China notícias e inovações que adoptaram e difundiram. Caldearam culturas.

A génese deste processo civilizacional foi identificada pelo historiador tunisino Jbn Khaldun (1332-1406) de quem Christophe Picard transcreve a seguinte passagem que reproduzo:
"les sciences ne sont nombreuses que lá ou il y a une importante population et lá oú la civilization est três développée ..." Referia-se a Bagdade, Córdova, Cairoão, Basra, Kufa ...

Apesar da instabilidade política, que sempre assolou os povos do Próximo-Oriente e do Mediterrâneo, espaços e tempos houve em que líderes esclarecidos usaram o poder que detinham para promover a procura e criação do conhecimento. Desenvolveram as artes, a filosofia e as ciências através do diálogo entre os mais sábios ultrapassando a intolerância criada pelas religiões.

No processo de conquista os árabes e os seus líderes, senhores de uma cultura guerreira e mercantil foram confrontados, nas cidades conquistadas com culturas mais avançadas de raiz greco-romana. Os conquistadores foram conquistados pelo conhecimento e sabedoria das grandes obras da antiguidade, traduzidas para o árabe, e cedo compreenderam que conhecimento e sabedoria também eram formas de poder e de prestígio.

Do deserto para as cidades que conquistaram ou construíram, os árabes trocaram as tendas e os largos espaços do deserto, de céus estrelados, por palácios de mármore cercados por muralhas, rodeados por cortesãos e servidos por escravos. O auge da sua grandeza mas prelúdio também da decadência.

Na ociosidade das cortes palacianas ocuparam-se os mais sábios a cultivar-se nas artes e filosofia das ciências. Financiados por Califas iluminados e por mecenas ávidos de conhecimento empreenderam na recolha inventariação e tradução da sabedoria que o Helenismo primeiro lhes dera a conhecer em Alexandria.
Traduziram obras esquecidas no grego, organizaram bibliotecas onde depositaram e tornaram acessível em árabe: Aristóteles, Platão, Hipócrates, Herófilo, Galeno.

A procura e aquisição das obras antigas foram estimuladas pela formação de bibliotecas públicas e privadas financiadas por mecenas e políticos interessados em promover o ensino das ciências da natureza e o seu prestígio pessoal.

Desenvolveu-se um comércio lucrativo favorecido pela introdução do papel descoberto na China e utilizado em larga escala no Islão. Um comércio que atingiu dimensões quási industriais com a formação de verdadeiras editoras especializadas na tradução, edição e comercialização de obras antigas e do Corão.

Nessa actividade participaram "legiões" de copistas e tradutores orientados por especialistas nas matérias versadas.

É consensual considerar Bagdade a cidade onde depois de Alexandria e de Damasco foi mais produtivo o diálogo entre Ocidente e Oriente.

A esta cidade da Mesopotâmia foi dada pelo seu fundador o nome simbólico, hoje irónico, de "cidade da Paz". Um nome que aliás não substituiu o do aldeamento persa que aí se situava e porque ainda hoje é conhecida. Foi seu fundador o Califa Al-Mamum (812-833) que amante da filosofia, das artes e das ciências nela construiu a "casa da sabedoria" um centro de estudos para onde atraiu sábios de diferentes etnias que iniciaram a tradução do grego, para o árabe das obras emblemáticas da civilização clássica com destaque em filosofia para os tratados de Aristóteles de que era grande admirador.

As obras de Aristóteles eram já conhecidas no Islão pelas traduções que haviam feito os Sírios e os Persas. Um dos seus grandes apreciadores era o Califa Al-Mamum fundador da "Casa da Sabedoria" como revela a história emblemática, que não resisto a transcrever. Uma história recentemente recordada por Christoph Picard em artigo publicado na revista "Histoire" num número dedicado ao Islão.

É assim que Christophe Picard retoma de Ibn al-Maduir esse episódio:
"Al-Mamun (813-833) vit en rêve un home de couleur blanche, rougeaud de teint avec un large front des yeux bleus profonds, de belle allure, assis sur un trône. Al-Mamun raconta: C'était comme si j'étais devant lui empli de vénération. Je dis: "Qui êtes-vous?". Il répondit: "Je suis Aristote". Alors je m'en réjouis et dis: "O sage! puis-je vous poser une question ? Il dit "Demandé ". Alors je demandai: "Qu'est-ce que le bien?" Il répondit: "Ce qui est bien selon la raison". Puis je demandai: "Et encore ?". Il répondit: "Ce qui est bien selon la Loi". Je dis: "Et encore ?". Il répondit: "Ce qui est bien selon la société" ... Ce rêve fut l'une des raisons les plus certaines de l'apparition de nouveaux livres.

O que os estudiosos denominam Idade do Ouro do Islão desenvolveu-se entre o século oitavo e o século treze e pode dividir-se em dois períodos, o primeiro a oriente protagonizado pelas cidades de Bagdade e do Cairo e o segundo mais longo entre 756 AC e 1492 AC nas cidades do Al-Andaluz, esta é uma História de sete séculos em que são protagonistas dessa saga cultural Judeus, Cristãos e Muçulmanos recrutados por califas e mecenas. Com eles renasce todo o saber antigo enriquecido nas traduções por críticas, comentários e sabedoria dos seus comentadores.

Na área da filosofia e na das ciências da natureza são muitas as contribuições dos sábios ao Serviço do Islão. Em conformidade com o objectivo deste ensaio salientarei as contribuições mais relevantes no domínio da Medicina.

Porque razão ou razões foi e é a Medicina um lugar de encontro privilegiado entre sábios judeus, cristãos e muçulmanos?

A arte de tratar o semelhante que sofre é milenar.

Depois dos feiticeiros, shamãs, curandeiros e sacerdotes surgiram os físicos. A história da evolução das suas artes está registada em tabletas de argila, papiros e pergaminhos e nas pedras dos monumentos funerários. A vocação ecuménica da Medicina é respeitada por homens de diferentes culturas e credos que trocaram, e trocam entre si conhecimentos e práticas. Um recanto de paz mutuamente assumido.

Como valor a vida é um valor maior encripto em todos os mandamentos, daí decorre que tendo a Medicina como objectivo defender a saúde, combater a doença e afastar a morte seja lugar aberto do entendimento.

Dos sábios do Islão que a História recorda os nomes, há os que se distinguiram na especulação filosófica e nos debates sem fim da Teologia mas que foram também maiores nos domínios do conhecimento na Matemática, na Geometria, na Astronomia e na Medicina.

Embora seja impossível enumerar todos os que se distinguiram, não se podem ignorar aqueles que mercê da sua genialidade marcaram a cultura científica e filosófica na segunda metade da Idade Média, prelúdio que foi do Renascimento que viria a colocar a Europa no Centro da História.

Recordemos pois os que mais se destacaram, as obras originais em que foram pioneiros, as instituições que serviram e os protectores e mecenas que os financiaram.

Entre os mais notáveis há que nomear Al-Razi (865-925) um muçulmano de etnia persa, polímata e autor prolífico a quem são atribuídas mais de 200 obras nos domínios da química e da medicina.

Médico chefe do Hospital Al-Ravi de Bagdade, foi pioneiro nas especialidades de neurocirurgia, oftalmologia e pediatria tendo identificado como entidades nosológicas distintas a varíola e o sarampo.

Escreveu um tratado sobre a natureza da visão e um tratado de técnicas cirúrgicas onde descreve a prática de extracções de cataratas moles por sucção.

É considerado como um dos maiores clínicos de todos os tempos.

Como alquimista é lhe atribuída a introdução do álcool e do ácido sulfúrico.

Na mesma época viveu Abulcassis (936-1083) um árabe nativo de Córdova onde estudou e praticou medicina. A sua grande obra " O método da Medicina" (Kitab Al Tarif) é uma enciclopédia em 30 volumes onde além dos temas médicos mais diversos são descritos centenas de instrumentos cirúrgicos entre os quais um fórceps para extracção de fetos mortos, espátulas, escalpelos, lancetas etc.

Considerado ainda hoje como o Pai da Cirurgia foi introdutor do uso do cat-gut e laqueação arterial. A sua obra traduzida para latim por Gerardo de Cretona influenciou a prática e o ensino da Medicina durante quási cinco séculos.

Foi seu antecessor o assírio Al-Masawaih (771-857) formado na Escola Médica de Gundishapur onde teve como mestre Jabrail ibn Buchtishu. Foi director do Hospital de Bagdade e médico de quatro califas. A sua obra principal "Doenças dos Olhos" é o primeiro tratado conhecido de Oftalmologia em que as afecções oculares são descritas de forma sistematizada.

Poliglota competente traduziu para siríaco obras médicas greco-romanas.

Foi mestre do cristão ibn-Ishaq (808-873) também conhecido por Johannitus que se distinguiu como geógrafo, astrónomo e cirurgião e escreveu "os dez tratados do olho" uma súmula dos conhecimentos em Oftalmologia onde são descritas dezenas de afecções oculares.

Para finalizar esta plêiade geracional o sempre merecidamente referido Avicena (980-1037) um prolífico polímate nascido na Pérsia e a cujo crédito estão contabilizadas 270 obras em disciplinas como a matemática, geometria, física, astronomia, teologia e medicina.

A sua competência em jurisprudência e administração valeu-lhe a nomeação como vizir.

Considerado o maior filósofo da sua época, o seu trabalho foi decisivo para a difusão das obras de Aristóteles.

Praticou medicina e escreveu o "Canon da Medicina" uma enciclopédia em cinco volumes em que, além de um volume sobre generalidades, são descritas as doenças orgânicas mais frequentes e as drogas utilizadas na sua terapêutica. Contém três capítulos dedicados a doenças mentais em que descreve as perturbações mais comuns como a depressão, insónia, demência e derrame cerebral.

O "Canon" foi uma das obras mais populares da sua época e a sua tradução em latim ainda era usada no ensino no séc. XVIII (!)

Numa outra obra médica "O livro da Cura" discute as relações corpo-mente e influência da mente no corpo (movimento, emoções, vontade), tratamento de afecções de causa emocional e explicação psicológica de doenças somáticas.

Também no séc. X agiganta-se pela diversidade e originalidade das suas obras Al-Hazen ou Alhacen (965-1039). Um verdadeiro polímata de origem persa que dominava saberes tão diversos como a matemática, física, astronomia, engenharia, anatomia, medicina, oftalmologia e psicologia.

Notável pela forma como utilizou o método experimental no desenvolvimento dos seus trabalhos é considerado um dos seus precursores.

Tendo afirmado que seria capaz de regularizar as cheias periódicas do Nilo construindo uma barragem em Assuam foi nomeado pelo Califa para o fazer, porém ao visitar o local onde planeava essa construção concluiu ser impossível a sua execução. Temendo o eventual castigo simulou estar louco. Foi preso e foi na prisão, onde permaneceu até à morte do Califa que escreveu a sua vasta obra.

Considerado o fundador da fisiologia ocular concebeu o olho como um aparelho óptico em que, contrariamente ao postulado por Aristóteles, os raios luminosos não eram emitidos pelos olhos mas reflectidos pelos objectivos e recebidos pela retina.

Foi autor de "O livro da óptica" um marco na história da Oftalmologia. A sua obra foi prosseguida pelo persa Al-Duvial Farisi (d.1320; 1260-1370).

Entre os maiores do séc. X foi Haly Abbas (982-996) um médico de etnia persa muito versado em psicologia. Autor de uma das mais celebradas enciclopédias médicas "O Livro completo da Arte Médica", traduzido para latim em 1127, e que três séculos depois ainda era reeditado em Veneza e utilizado no ensino.

Pioneiro da psicossomática é autor de comentários sobre o sono, memória, depressão e epilepsia.

De salientar a importância que dava às relações médico-doente para um bom desempenho profissional, assim como do cumprimento de boas normas de deontologia e ética.

Entre o séc. X e o séc. XII AC, predominam os filósofos e cientistas do Al-Andaluz. A esta onda geracional pertenceu Avenzoar (1091-1161) também conhecido por Ibn Azur que nasceu em Sevilha e se formou na Universidade de Córdova. Era membro de uma família de médicos que serviu a medicina islâmica durante cinco gerações.

Apologista da dissecção anatómica e da autópsia é considerado o Pai da Cirurgia Experimental. A sua obra "Al-Taisir" é uma introdução à cirurgia em que defende o uso de animais para testar novas técnicas cirúrgicas.

Entre as práticas cuja invenção lhe é atribuída são referidas a traqueotomia, nutrição parentérica (!) e a anestesia com esponjas embebidas em narcóticos. Na área médica descreveu a meningite assim como a etiologia da sarna e a natureza inflamatória das otites. Na área da Terapêutica é autor do tratado "método de preparação de medicinas e dietas".

Foi um dos primeiros críticos da Teoria dos Humores de Hipócrates e Galeno que serviu de base justificativa para prática de sangrias até ao séc. XVIII, com as consequências deletérias que são conhecidas.

Critico de Avicena e Mestre de Averróis caiu em desfavor do Califa Almoravide foi preso em Marraquesh só regressando a Sevilha, onde morreu, depois da conquista do poder pelos Almóadas.

Também contemporâneo de Averróis e Maimonides foi Avenpace (1095-1138). Muçulmano de etnia árabe nasceu em Saragoça. De interesses culturais, científicos muito variados distinguiu-se como astrónomo, filósofo, físico e médico.

Como astrónomo é lhe atribuída a construção de um modelo astronómico original e a interpretação de que a via láctea era constituída por muitas estrelas.

Comentador da "meteorologia" de Aristóteles elaborou sobre a teoria do movimento.

As suas ideias filosóficas influenciaram Ibn Rushd e Albertus Magnus.

Foi vizir de Abu Baks durante o governo almorávide de Saragoça. Foi poeta com talento e músico, morreu porém jovem deixando uma obra dispersa e não organizada e só conhecida pelas referências que lhe são feitas por contemporâneos.

Na área das Neurociências há referências a trabalhos seus sobre sensações, imaginação e inteligência.

Nesta galeria de médicos-filósofos ao serviço do Islão é obrigatório referir Averróis (1128-1192) o polímata do Al-Andaluz notável em jurisprudência teologia, astrologia e medicina e considerado como o maior filósofo do seu tempo.

Celebrizou-se pelos Comentários às obras de Aristóteles, que bem conhecia, e de que foi um dos maiores divulgadores devido às polémicas que o seu pensamento gerou no Islão e no mundo cristão onde na Universidade de Paris a corrente dos "averróistas latinos" era favorável à sua filosofia.

Os opositores acusavam os averroístas de defenderem a Teoria da dupla verdade, da fé e da razão, que se opunha à teoria agostiniana da verdade única.

Averróis defendia ideias heréticas de que a alma, perecível e corruptível, não é imortal e a concepção aristotélica de que Deus é o "motor imóvel" que move o mundo não criado mas eternamente existente.

Conhecido como o "Comentador" os seus adversários deram-lhe o título pouco abonatório de "burro" ou de "macaco de Aristóteles".

Foi perseguido e desterrado por Al-Mansur. Foi o filósofo mártir.

No livro de António Borges Coelho "Donde viemos", recentemente publicado, é descrito o seu fim conforme o retrato de Ibn Al-Arabi (1165-1240).

"Em 1195, por pressão dos alfaquis e de alguns notáveis foi banido da Cidade e os seus livros queimados na praça pública. Morreu em Marraquexe. O místico Ibn Al-Arabi que assistiu ao funeral em Córdova, escreveu que num dos costados da mula ia o cadáver, no outro, os seus livros".

Das obras médicas conhecidas destaca-se o tratado "Colliget" (generalidades), traduzido para latim e utilizado nas escolas médicas europeias até ao século XVIII.

O "Colliget" é um tratado em sete volumes em que são abordados temas de anatomia, neurologia, clínica, higiene e terapêutica.

Há ainda conhecimento de outras obras médicas da sua autoria em que são tratados tópicos de medicina clínica, arte de curar, causas e sintomas de doenças, medicamentos simples e, em psicologia, uma teoria sobre a inteligência.

No pensamento filosófico de Averróis é manifesta a oposição a Al-Ghazali ou Alghazel (1059-1111) um jurista, filósofo, teólogo místico da corrente do sufismo asharita a cuja obra "Incoerência dos filósofos" contrapôs Averróis a "Incoerência da incoerência" e à outra obra de Alghazali "O critério decisivo para distinguir o Islão da infidelidade Mashed" contrapôs o "Tratado decisivo".

Como Averróis também Al-Ghazali produziu obra nos domínios da Medicina e da Psicologia. Defensor da prática das dissecações anatómicas, aliás como Averróis, Ibn Zur e Ibn al-Nafis, fez importantes observações anatómicas que completaram ou corrigiram observações dos seus antecessores.

Distinguiu veias e artérias, observou a pulsação arterial e tentou interpretar o seu significado. O sistema nervoso mereceu-lhe especial atenção. Distinguiu cérebro e cerebelo, nervos motores e sensitivos, relações dos nervos com o cérebro, enervação e as camadas do globo ocular.

Também a reprodução e o parto mereceram a sua atenção sendo autor de um livro sobre gravidez e parto.

Mais notável do que as suas contribuições anatómicas foi a sua intervenção na área da Psicologia Cognitiva.

Abro aqui um parêntesis ao que foi dito sobre dissecções anatómicas e localização no cérebro das actividades cognitivas assinaladas como contribuição da ciência islâmica mas que tiveram antecessores na Escola de Alexandria como destaque para Herophieus (335-280 BC) foi um dos seus fundadores. Sabe-se que nasceu na Calcedónia e viveu em Alexandria onde praticou centenas de dissecções anatómicas. São-lhe atribuídas numerosas observações originais sobre a anatomia e fisiologia do aparelho circulatório e do cérebro onde, contrariamente a Aristóteles, localizava o centro de toda a actividade psíquica.

Estudou o pulso sendo o primeiro a medir a pulsação utilizando um relógio de água da sua invenção. É considerado pela sua prática experimental como um dos fundadores do método científico.

O conhecimento que existe da obra de Herohieus é indirecto através de referências e comentários feitos à sua obra, entre outros por Galeno.

Surpreende o facto de muitas das observações e descobertas que lhe são atribuídas sejam idênticas às atribuídas aos sábios do Islão que descrevemos. Apesar da grande distância temporal que separa o tempo em que Herophilus viveu e a idade de ouro do Islão, aproximadamente mil anos, os conhecimentos da Escola de Alexandria eram certamente conhecidos pelas elites que praticavam medicina que os transmitiam através das gerações pelo ensino. Infelizmente a destruição das obras de Herophilus não permite analisar objectivamente como foi feita a sua transmissão através das muitas gerações que lhe sucederam.

Contemporâneo de Averróis e também mestre influente da filosofia medieval foi Maimonides (1135-1204) um judeu cordovês que trabalhou em Espanha como rabi, teólogo e médico e que é aqui referido não só pela sua contribuição para o progresso da Medicina mas porque o desenvolvimento da sua obra em Córdova é um exemplo do ambiente intercultural neste período do Al-Andaluz.

As suas obras inspiraram ao longo de séculos o pensamento teológico e ainda alimentam controvérsias no seio das comunidades judaicas com os "treze princípios de fé" que formulou e que são um guia da ortodoxia judaica.

Como médico ficou célebre "a oração" que redigiu, para ser pronunciada matinalmente pelos médicos, em que é pedido a Deus "força da mente e do coração para servir ricos e pobres, os bons e os perversos, amigos e inimigos" e que neles se vejam apenas os irmãos que sofrem.

Um dos médicos-cientistas que melhor serviram o Islão no séc. XIII foi Ibn al-Nafis (1213-1288) de origem síria nascido em Damasco e que viveu no Egipto onde exerceu medicina nos hospitais de Al-Nassri e Al-Mansoni.

Como anatomo-fisiologista corrigiu as obras de Galeno com novos pormenores anatómicos sobre o cérebro, músculos e nervos, circulação pulmonar e coronárias, assim como observações sobre a pulsação periférica. É considerado como o mais distinto fisiologista da Idade Média.

Defensor da Medicina experimental foi apologista da prática da autópsia e dissecção cadavérica.

Como cirurgião e clínico escreveu uma enciclopédia médica planeada para 300 volumes de que concluiu 43, entre os quais "O livro compreensivo da Medicina" em que trata de temas de cirurgia, urologia e otorrino.

São também da sua autoria "Comentários sobre o Canon de Avicena e sobre drogas compostas". Foi observador atento das actividades da cognição, sensação imaginação que localizou no cérebro em oposição a Aristóteles.

Na área da religião escreveu "Metodologia para os Hadits". Apesar de obra tão extensa teve ainda tempo para escrever"Teologicus autodidaticus" classificado como obra de ficção.

Da análise das obras dos médicos e cientistas criadores da Ciência islâmica pode concluir-se que além dos trabalhos como clínicos e cirurgiões foram especialmente criativos em Oftalmologia, uma especialidade médico-cirúrgica, que até ao séc. VIII era praticada por amadores, os oculistas, sem formação avaliada e reconhecida, mas que adquirem durante o califado abássida o estatuto de especialidade médica, distinguindo-se na sua prática e ao serviço da corte vários médicos ilustres. Os progressos que protagonizaram são atestados pelos tratados que escreveram em que divulgaram descobertas e inovações. É de admitir que o seu interesse pelas afecções oftalmológicas estivesse relacionado com a sua elevada frequência devido às condições ambientais em que viviam as populações que atendiam: muito sol, secura do ar e tempestades de areia.

Igualmente se distinguiram nas Neurociências em que abriram novas perspectivas na compreensão da organização e funcionamento do sistema nervoso, das suas perturbações e terapêuticas e uma vasta gama de especialidades como a psicologia, psico-somática, neurologia, psiquiatria e psicoterapia.

No que é entendido por Saúde Mental foram revolucionários e exemplares social e profissionalmente numa época em que no Ocidente as doenças mentais eram interpretadas como manifestações demoníacas e os loucos ostracizados e segregados socialmente, no mundo islâmico construíram-se enfermarias e hospitais psiquiátricos - em Bagdade em 705, no Cairo em 800 e em Fez, Alepo e Damasco no séc. XIII.

Nestas instituições que não eram asilos praticavam-se terapêuticas ocupacionais, hidroterapia e musicoterapia (?), terapêuticas que, saliente-se, não eram só fruto de experiência clínica empírica mas que tinham fundamentação experimental.

A influência da música no comportamento animal foi investigada por Avicena (980-1037) que verificou que podia acelerar ou retardar o andamento dos camelos modificando o ritmo de um acompanhamento musical ("Tratado sobre a influência das melodias na alma dos animais").

A expressão corporal dos sentimentos e emoções foi investigada por Ibn al-Haytham que constatou durante os exames clínicos a que submetia os pacientes, se observavam de mudanças no ritmo do pulso quando evocados acontecimentos agradáveis ou desagradáveis das suas vidas.

Além de aprofundarem conhecimentos já existentes sobre a Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso e órgãos dos sentidos, caracterizaram e descreveram patologias associadas às suas disfunções e invocaram terapêuticas para minorar o sofrimento dos pacientes e promover a sua integração social.

Exploraram os enigmas da vida mental, tentando compreender as perturbações de comportamento e o mundo cognitivo. Não foram alheios a exploração das emoções dissecando, como fez .........., fenómenos com o sono e perturbações da memória.

Durante a observação clínica orientaram-se de forma sistemática na exploração das relações somato-psíquicas procurando identificar a génese das alterações observadas de cariz psicológico ou somático.

Numa época em que no mundo cristão as doenças mentais eram interpretadas como manifestações demoníacas e os doentes segregados do convívio social, os médicos com formação islâmica elaboravam teorias sobre o funcionamento psíquico, as doenças que afectavam a mente e preconizavam terapêuticas para o seu tratamento.

Subjacente a esta actuação estava o ditame inscrito no Alcorão:
"Não entregueis aos tolos o vosso património, cuja gestão Allah vos confiou, mas sustentai-os vesti-os e tratai-os humanamente dirigindo-vos a eles com benevolência".
(4ª. Suratra-versículo 5)

Enumeradas que foram as contribuições originais mais emblemáticas dos médicos-filósofos ao Serviço do Islão, consideremos agora a contribuição que lhes é reconhecida, com ênfase, como intermediários na tradução e divulgação das grandes obras greco-romanas cuja memória estava esquecida na Europa no alvorecer da Idade Média.

O destaque dado pela História, escrita a Ocidente, sobre o papel do Islão como intermediário justifica-se pela sua importância no renascimento cultural e científico da Europa Medieval.

Neste processo podem identificar-se dois períodos - um período pré-islâmico em que a sabedoria grega fluiu para Oriente através da Síria e Persa e é traduzida para siríaco e persa; e um período islâmico, depois da queda do Império Sassânico em que as obras em siríaco, persa e também em grego são traduzidas para árabe.
Com a queda do Império Sassânico e a conversão dos persas, o árabe tornou-se progressivamente a língua franca em todo o Próximo Oriente. É o prelúdio da Idade de Ouro do Islão durante o qual se acelera o diálogo filosófico e cientifico entre o Oriente e Ocidente acalentado por líderes políticos e religiosos.

Também neste período se podem considerar dois sub-períodos: um em que a informação flui de Ocidente para Oriente, tendo com centros principais as cidades de Bagdade e do Cairo, e um segundo sub-período, mais longo, em que as obras gregas traduzidas em árabe, e também originais em árabe, são vertidas para latim. Neste refluxo os centros culturais mais importantes situaram-se nas cidades do al-Andaluz, Toledo, Córdova, Saragoça, Sevilha, Granada e em Salerno na Itália.

Para terminar esta recordatório, dos mais sábios cientistas e médicos que serviram o Islão e as suas principais obras e contribuições, uma referência a Ibn Khaldun (1332-1406) um polímate afro-árabe considerado por Bernard Lewis o mais profundo pensador da filosofia da história de todos os tempos.

Membro da família dos Banu Khaldun cuja etnicidade é controversa, nasceu em Tunis onde os seus familiares ocupavam importantes cargos políticos na corte da dinastia Hafsida antes da queda de Sevilha.
Teve uma educação esmerada marcada pelos ensinamentos do Alcorão que sabia de cor desde criança. Na carreira política que sempre o tentou foi ambicioso e na época conturbada em que viveu a sua acção ficou marcada por vitórias e derrotas como valido ou desvalido dos senhores do poder, que apoiava ou traía. Foi Chanceler e até Ministro e prisioneiro politico quando em desgraça.

Depois das desventuras politicas magrebinas, Ibn Khaldun instalou-se no Cairo a partir de 1382 ao serviço do Sultão az-Zahir Barquq.

No Cairo além das suas actividades como professor e jurista escreveu uma autobiografia que permite seguir a sua errância política pelas cortes do Magreb e completou o "Mugaddimah" (Prolegomena) considerado a obra fundadora de disciplinas como a Filosofia da História, Historiografia, Sociologia, Demografia, Psicologia, Economia, Politica.

O grande historiador inglês A.J.Toynbee (1889-1975) considerou o Mugaddimah "the greatest work that ever yet been created by any mind in amy time or place".

Aristotélico assumido Ibn Khaldun foi um intelectual "avant la lettre", maquiavélico antes de Maquiavel, evolucionista antes de Darwin e freudiano antes de Freud. Malthusiano antes de Malthus.

Na digressão que fiz pelo mundo islâmico medieval ele foi a personagem mais fascinante com que me cruzei.
Reflectindo sobre o trajecto e pensamento filosófico de Ibn Khaldun, um assumido aristotélico como Averróis cujo destino trágico conhecia, justifica-se a hipótese de que não era o místico porque se fazia passar mas um seguidor encoberto da verdade da razão prevenindo-se assim do martírio que Averróis sofreu.

Do que relatámos decorre que na génese da civilização, dita ocidental, houve uma contribuição não desprezível dos sábios ao serviço do Islão na criação da Ciência nova nomeadamente nos domínios da Medicina, Oftalmologia, Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental. Igualmente inestimável o seu papel como tradutores e comentadores de obras esquecidas da antiguidade clássica greco-romana cuja divulgação abriu caminho à grande aventura do Renascimento ao Iluminismo.

As religiões abraâmicas, apesar do espírito que inspirava os seus profetas e messias, incorporaram práticas com o objectivo de assegurar o seu poder terreno.

Como a História demonstra estão manchadas com o sangue de inocentes e mártires e por ódios que o fanatismo e fundamentalismo fomentam.

Apagar preconceitos étnicos e religiosos é uma missão que compete aos sábios e generosos.

Políticos, artistas e académicos têm imaginado e posto em prática programas e plataformas para promoção de diálogo que promovem o diálogo.

O Programa Encontro das Civilizações é uma iniciativa das Nações Unidas dirigido pelo Presidente Jorge Sampaio e subscrito por líderes políticos de todos os quadrantes religiosos.

Qual o entendimento possível entre as religiões abraâmicas?

Na obra notável do teólogo suíço Hans Kunq "Islão, passado, presente e futuro", recentemente publicado em português, é todo um programa que é proposto depois de analisada a evolução comparativa das três religiões e identificado o que as aproxima e separa. No prólogo desta obra o Autor enuncia os aforismos com que justificam o seu empenhamento.

Não há paz entre as nações
sem paz entre as religiões
Não há paz entre as religiões
sem diálogo entre as religiões
Não há diálogo entre as religiões
sem pesquisa de base nas religiões

Só o diálogo poderá ultrapassar o medo e a desconfiança. A guerra das civilizações não é solução.

O triálogo será longo e difícil mas é urgente, porque um desafio maior se projecta no nosso destino como espécie. Que o Apocalipse, há muito anunciado pelos profetas e messias não se concretize sob a forma de uma catástrofe climática e ecológica que dê razão à profecia de Levi-Strauss ao dizer sobre a espécie humana que não foi a primeira aparecer na terra e não será a última a desaparecer.

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